A Intel encerrou o primeiro trimestre de 2026 com números que surpreenderam até os analistas mais otimistas. A receita chegou a US$ 13,6 bilhões (bem acima dos US$ 12,36 bilhões projetados) e a margem bruta não-GAAP atingiu 41%, 650 pontos-base acima da própria orientação da empresa de 34,5%.
O lucro por ação ajustado foi de US$ 0,29, ante uma expectativa de equilíbrio praticamente zero. Uma das explicações para esse salto veio de um lugar inesperado: chips que normalmente iriam para o lixo.
Chips “sucata” encontraram compradores
Em publicação no X no dia 24 de abril, o analista de tecnologia Ben Bajarin relatou ter recebido esclarecimentos diretamente da equipe de relações com investidores da Intel.
Segundo ele, a empresa obteve um ganho inesperado de margem a partir de um processo chamado de yield salvage, ou recuperação de rendimento de produção.
Durante a fabricação de wafers semicondutores, os chips cortados nas bordas da pastilha tendem a apresentar mais defeitos e desempenho inferior em relação àqueles produzidos no centro.
Em condições normais de mercado, parte desse material seria simplesmente descartada por não atingir os parâmetros de nenhum SKU comercializável. O que mudou agora é que a demanda está tão elevada que esses chips encontraram compradores dispostos a aceitá-los.
A Intel passou a fazer o rebinning desse material: em vez de jogar fora, reclassifica os chips como SKUs de especificação inferior e os coloca à venda a preços condizentes com suas limitações. O resultado é receita adicional sobre algo que antes não gerava nada.
Demanda por IA está engolindo tudo
O fenômeno não é um acidente contábil. Ele reflete o estado atual do mercado de processadores, onde a expansão acelerada de infraestrutura de inteligência artificial criou uma pressão de demanda que o setor não estava preparado para absorver.
Os processadores Xeon da Intel, que alimentam servidores de data center para cargas de trabalho de IA, permanecem em demanda sustentada, puxados por grandes fabricantes como Dell, HP e Lenovo, além de hyperscalers como Microsoft, Google e Amazon, que adquirem processadores Intel em volumes massivos para expandir sua infraestrutura.
Diante disso, compradores corporativos estão aceitando o que está disponível, mesmo que não seja o produto ideal. Um chip que antes ficaria encalhado por não atingir as especificações de um SKU premium agora tem fila de espera.
“O CPU está se reinserindo como a base indispensável da era da IA. Isso não é apenas o que pensamos. É o que ouvimos dos nossos clientes”
Lip-Bu Tan, CEO da Intel
Resultados acima do esperado pelo sexto trimestre seguido
O desempenho do Q1 2026 marca o sexto trimestre consecutivo em que a Intel supera suas próprias metas internas, resultado que o CEO Lip-Bu Tan atribuiu à execução disciplinada e a uma reformulação cultural dentro da empresa.
Os negócios ligados à IA agora representam 60% da receita total da Intel, com crescimento de 40% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A divisão de foundry registrou receita de US$ 5,4 bilhões, alta de 20% na comparação sequencial, com melhora nos rendimentos do processo Intel 18A, o nó mais avançado da empresa, que está avançando mais rápido do que o previsto internamente.
Segundo o CFO David Zinsner, a margem bruta de 41% ficou 650 pontos-base acima da orientação em função de maior volume, que incluiu estoque previamente reservado, melhor mix de produtos e precificação mais favorável, além dos ganhos de rendimento no Intel 18A.
Produção ainda não acompanha o ritmo da procura
Apesar dos resultados, a Intel ainda opera no vermelho em termos contábeis. O prejuízo líquido da companhia se ampliou para US$ 4,28 bilhões no trimestre, ou US$ 0,73 por ação, ante US$ 887 milhões registrados no mesmo período do ano anterior A expansão de capacidade fabril continua sendo um gargalo.
O CFO confirmou que a Intel está aumentando os inícios de wafer em todos os seus nós e melhorando os rendimentos e a capacidade de produção, com apoio de fábricas externas como a TSMC para flexibilidade adicional de fornecimento.
Ainda assim, a demanda segue superior à oferta, principalmenteno segmento de CPUs para clientes corporativos.
Leia também:
- Intel pode adiar Xeon 7 Diamond Rapids para 2027, aponta vazamento
- Intel relata ganhos acima do esperado e suas ações saltam 28%, atingindo valor recorde
- Intel quer parceria com Elon Musk para reduzir custos na produção de semicondutores
Sucata virou estratégia, e o mercado vai continuar pressionado
O que a Intel fez com seus chips de borda não é uma gambiarra: binning é uma prática estabelecida na indústria de semicondutores.
O que mudou foi o patamar da demanda, que tornou comercialmente viável vender um material que antes não encontrava destino. Isso diz muito sobre onde o mercado de processadores está agora.
A construção acelerada de Data Centers para suportar modelos de linguagem e outras cargas de trabalho de IA não tem previsão de desaceleração no curto prazo. Enquanto a procura por capacidade computacional continuar superando a oferta disponível, fabricantes como a Intel terão espaço para monetizar até o material que estava no limite do descarte.
Não é errado afirmar, portanto, que a escassez, neste caso, transformou “sucata” em linha de receita.
Fonte(s): CNBC