Doze meses depois da chegada de Lip-Bu Tan ao cargo, as ações da Intel triplicaram de valor e levaram a fabricante a uma das maiores recuperações do setor de semicondutores na década.
O papel INTC saiu de cerca de US$ 26 em março de 2025 e bateu novo recorde acima de US$ 95 no início de maio de 2026, com alta de mais de 360% no período. Em abril, a companhia registrou o melhor mês desde 1987 na Nasdaq.
A escalada chegou em paralelo a movimentos políticos e empresariais inéditos para a Intel. O governo norte-americano se tornou um dos principais acionistas da empresa, Elon Musk entrou como cliente foundry de peso, e a Apple começou a sondar a fabricante para diversificar a produção dos próprios chips, hoje concentrada na TSMC. Cada anúncio empurrou o papel para cima.
A questão é se as relações construídas por Tan se transformam em execução real na manufatura. Mais de uma dezena de funcionários atuais e ex-Intel ouvidos pela Bloomberg afirmaram que o CEO ainda não detalhou internamente um plano específico para corrigir o que falha nos produtos e nas fábricas.
O risco está no rendimento do processo 18A e na transição para o 14A, sem qualquer garantia de que o pipeline atenda o nível de qualidade exigido por clientes externos.
Trump, Tesla e SpaceX entraram primeiro
A relação mais simbólica do primeiro ano de Tan foi montada com a Casa Branca. Em agosto de 2025, o governo dos Estados Unidos aplicou US$ 8,9 bilhões na Intel ao preço de US$ 20,47 por ação, posição que valia aproximadamente US$ 36 bilhões no fim de abril, segundo a Bloomberg. O
salto representa retorno aproximado de US$ 27 bilhões em pouco mais de oito meses. O acordo combinou recursos do CHIPS Act com investimentos em programas de chips classificados como estratégicos.
A negociação aconteceu depois de uma confrontação pública entre Tan e o presidente Donald Trump, que chegou a pedir a saída do executivo. Para virar o jogo, o CEO mobilizou nomes do setor, com destaque para Michael Dell, fundador da Dell Technologies, que avalizou Tan diretamente para o presidente.

“A reunião na Casa Branca encerrou o impasse e converteu o governo no terceiro maior acionista da fabricante.”
A segunda peça veio com Musk: a parceria Terafab envolve SpaceX, xAI e Tesla em um complexo de fábricas no leste do Texas, com investimento inicial declarado de US$ 55 bilhões (cerca de R$ 270,6 bilhões na cotação atual de R$ 4,92 por dólar) e potencial de chegar a US$ 119 bilhões (aproximadamente R$ 585,5 bilhões) no projeto completo.
Os valores não consideram tributos brasileiros nem taxas de importação. A escolha pela tecnologia de fabricação 14A da Intel posiciona a companhia como anchor tenant da próxima geração de chips para automóveis, robôs humanoides e satélites.
A terceira frente envolveu a Apple. Reportagens recentes confirmaram que a fabricante do iPhone iniciou conversas exploratórias com Intel e Samsung para produzir parte dos processadores principais nos Estados Unidos.
A Apple manufatura atualmente quase todos os chips na TSMC em Taiwan, e qualquer movimento em direção à Intel representa o aval mais relevante já obtido pela divisão Intel Foundry. Após o vazamento das negociações, o INTC saltou mais de 16% em uma única sessão.
Os 65% que separam a Intel da TSMC
Os números técnicos contam outra história. Segundo a New Street Research, o custo da Intel para produzir cada chip é aproximadamente três vezes maior que o da TSMC, líder do setor.
Mais de 40% dessa diferença vem do rendimento de wafers, indicador da proporção de chips utilizáveis em cada lote produzido. A Intel opera atualmente com cerca de 65% de yield, contra mais de 80% da rival taiwanesa. O custo de mão de obra norte-americana responde por apenas 8% da diferença total.
A tabela abaixo concentra os principais marcos operacionais da fabricante no período de transição:
| Indicador | Status atual |
|---|---|
| Preço da ação INTC | Cerca de US$ 95 (recorde histórico em maio/2026) |
| Receita Q1 2026 | US$ 13,58 bilhões |
| EPS ajustado Q1 2026 | US$ 0,29 (estimativa de mercado: US$ 0,01) |
| Receita do segmento Data Center e IA | US$ 5,1 bilhões (alta de 22% em base anual) |
| Yield do processo 18A | Aproximadamente 65% |
| Yield padrão da indústria | Esperado em 2027 |
| Investimento Terafab (1ª fase) | US$ 55 bilhões |
| Total Terafab no buildout completo | Até US$ 119 bilhões |
| Stake do governo dos EUA | 9,9% (US$ 36 bilhões em valor de mercado) |
O Panther Lake, primeiro processador de consumo da Intel produzido em 18A, chegou ao mercado como Core Ultra Série 3 e equipa mais de 200 designs de notebooks lançados a partir do CES 2026.
O Clearwater Forest, processador Xeon de 288 núcleos, é o representante do 18A no segmento de servidores.
O Nova Lake para desktop, previsto para o fim de 2026, completa o trio. A Computex 2026 será a vitrine principal dessa linha, com keynote de Tan no dia 2 de junho.
A cultura que normaliza atraso
Naga Chandrasekaran, executivo que comanda a divisão de fábricas há quase dois anos depois de migrar da Micron, descreve um ambiente em transformação.

A meta inicial dele foi recuperar a confiança dos próprios times de produto da Intel, que ainda terceirizam parte dos chips mais importantes para a TSMC. A reconquista do cliente interno é apenas parte da equação.
“Os produtos da Intel sozinhos, mesmo em um cenário extremamente bem-sucedido, não conseguem financiar o capital, o preenchimento das fábricas e a escala que são necessários para ter sucesso suficiente no negócio de silício hoje.”
Naga Chandrasekaran, líder do Intel Foundry Manufacturing & Supply Chain
A franqueza contrasta com o tom dos anos sob comando de Pat Gelsinger, antecessor de Tan, quando três anos seguidos de prejuízo e queda de 33% na receita em relação ao pico de 2021 eram apresentados em chave otimista. A reorientação cultural é estrutural.
Kevork Kechichian, contratado por Tan para liderar a divisão de chips de servidores depois de carreira na Qualcomm e na Arm, relatou episódio que sintetiza o problema.
Quando equipes atrasavam metas em duas semanas, o pedido de plano de recuperação era respondido com a simples extensão do cronograma em mais duas semanas. A normalização do atraso é descrita pela direção atual como o principal obstáculo de mentalidade interna.
A divisão atual da gestão é simples. Bem simples, na verdade. Ao menos 80% da organização precisa internalizar a urgência da recuperação, segundo a equipe de comando.
A montadora de processadores foi construída para liderar com quase monopólio em chips para Data Center, posição que abrigou 99% do mercado em determinado momento. As habilidades necessárias para competir desde a posição de desafiante são diferentes das que sustentaram a liderança histórica.
O Q1 que mudou a leitura de Wall Street
O salto recente do INTC tem base concreta nos números do primeiro trimestre de 2026. A Intel reportou receita de US$ 13,58 bilhões, contra estimativa de US$ 12,42 bilhões. O EPS ajustado atingiu US$ 0,29, ante consenso de US$ 0,01.
O segmento de Data Center e IA cresceu 22% em base anual e atingiu US$ 5,1 bilhões, com demanda superando a oferta.
A leitura do mercado mudou também por declarações públicas de fora da Intel. Jensen Huang, CEO da NVIDIA, afirmou em diversos eventos recentes que CPUs continuarão fundamentais em Data Centers de IA, principalmente para cargas agênticas e de inferência. A fala validou indiretamente a tese de Tan, que aposta na expansão do papel das CPUs no novo ciclo da inteligência artificial.
A guidance para o segundo trimestre de 2026 também surpreendeu. A empresa projeta receita entre US$ 13,8 bilhões e US$ 14,8 bilhões, com EPS ajustado estimado em US$ 0,20. A faixa supera a expectativa de Wall Street de US$ 13,03 bilhões.
O setor de embalagem avançada virou outro vetor de receita relevante, com a CFO David Zinsner afirmando à CNBC que a expectativa por cliente individual passou da casa de centenas de milhões para bilhões de dólares.
Estilo Sand Hill Road encontra a fábrica
O modelo de gestão de Tan é descrito por quem o conhece como herdado da carreira em capital de risco.
As contratações chegam por conversas de alto nível com nomes da indústria, sem planos de negócios detalhados, e a confiança é colocada nas pessoas escolhidas. A energia do CEO é dedicada a abrir portas, não a auditar estratégias internamente.

A abordagem funciona em venture capital porque o custo de cada aposta individual é contido, e o portfólio absorve perdas pontuais. Em fabricação de semicondutores, onde uma fábrica custa dezenas de bilhões e uma geração de processo que falha em yield consome anos de investimento, a tolerância para imprecisão é menor. O risco de execução muda de natureza.
A meta declarada de Tan é completar até o fim de junho o recrutamento da liderança de confiança que considera capaz de entregar o plano. Kevork Kechichian e Naga Chandrasekaran já compõem essa estrutura. Outras posições críticas seguem em definição.
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O que ainda falta…
O preço da ação reflete um cenário em que as relações construídas por Tan se converteram em manufatura competitiva.
A Intel precisa, entre o segundo e o terceiro trimestre de 2026, mostrar avanços concretos no rendimento do 18A e firmar o primeiro pedido formal da Apple via Intel Foundry. Sem isso, o múltiplo de 161 vezes o lucro projetado fica difícil de sustentar.
O rendimento padrão da indústria no 18A só chega em 2027, segundo a própria empresa. O 14A entra em produção de risco no fim de 2027 e em volume em 2028. Esses prazos definem a janela em que cada um dos clientes recém-conquistados pode testar a Intel para valer.
O fundamento mudou. Jon Bathgate, gestor de fundos da NZS Capital, resumiu a tensão entre a aposta em Tan e a dificuldade objetiva da tarefa: o executivo recebeu uma mão complicada e, ainda assim, está entre os poucos com chance real de virar o jogo.
Credibilidade, como o próprio CEO repetiu em entrevistas recentes, virá dos resultados.
Fonte(s): Intel