NVIDIA lança modelos de IA para computação quântica com desempenho até 2,5x maior

A NVIDIA anunciou o Ising, sua primeira família de modelos de inteligência artificial open-source voltada exclusivamente para a computação quântica. Os modelos foram desenvolvidos para atacar dois dos maiores obstáculos práticos dos processadores quânticos modernos: a calibração de qubits e a correção de erros em tempo real.

O componente de decodificação chega com desempenho 2,5 vezes mais rápido e 3 vezes mais preciso do que o pyMatching, atualmente o decodificador open-source mais utilizado por grupos de pesquisa quântica no mundo.

Divulgação/NVIDIA

Calibração e erros: os dois gargalos da computação quântica

Para entender o que o Ising resolve, é preciso compreender o problema de base. Os processadores quânticos (QPUs) trabalham com qubits, partículas extremamente instáveis e sensíveis a interferências do ambiente.

Esse comportamento gera falhas com frequência: nos melhores sistemas disponíveis hoje, ocorre um erro a cada mil operações. Para que a computação quântica se torne viável em escala real, esse índice precisa cair para algo próximo de um erro a cada trilhão de operações, uma diferença de nove ordens de magnitude.

Divulgação/NVIDIA

Dois processos são determinantes para chegar a esse patamar. O primeiro é a calibração: o ajuste dos parâmetros físicos do QPU para que seus qubits se comportem de maneira previsível e consistente.

O segundo é o decoding, ou decodificação: a interpretação de medições redundantes de um qubit lógico com correção de erros, gerando um sinal de correção antes que novos erros se acumulem. Se a decodificação não acompanhar o ritmo do hardware, o sistema perde coerência e os resultados dos cálculos se tornam inválidos.

Como o Ising Calibration funciona

O Ising Calibration é um modelo de linguagem visual (VLM) com 35 bilhões de parâmetros, ajustado para ler medições experimentais de um QPU e inferir automaticamente os ajustes necessários para calibrá-lo.

Divulgação/NVIDIA

Segundo a NVIDIA, quando utilizado em conjunto com um agente de IA, o modelo reduz o tempo de calibração de dias para horas.

O modelo também é 15 vezes menor do que as alternativas existentes para a mesma tarefa, o que facilita sua adoção em ambientes de pesquisa com recursos computacionais mais limitados, sem exigir infraestrutura dedicada de grande porte.

Divulgação/NVIDIA

Ising Decoding: velocidade e precisão para correção de erros

O Ising Decoding compreende duas variantes de uma rede neural convolucional 3D (CNN 3D), com 0,9 milhão e 1,8 milhão de parâmetros, otimizadas respectivamente para velocidade e precisão.

Ambas realizam a pré-decodificação para correção de erros em códigos de superfície, a abordagem mais comum em sistemas de computação quântica tolerantes a falhas.

Divulgação/NVIDIA

Nos benchmarks da NVIDIA, os resultados superam o pyMatching com margem expressiva: 2,5 vezes mais rápido, 3 vezes mais preciso, com 10 vezes menos dados de treinamento necessários para atingir esse nível de desempenho.

“Os melhores processadores quânticos de hoje produzem um erro aproximadamente uma vez a cada mil operações, e a taxa de erro lógico está diretamente ligada à velocidade com que a decodificação ocorre ao lado do hardware. Um ganho de 2,5 vezes nessa velocidade eleva o teto de operações de porta que um processador quântico pode sustentar antes de seus qubits lógicos colapsarem.”

Sam Stanwyck, diretor de produto quântico da NVIDIA, ao The Next Platform

Modelo Tipo Parâmetros Destaque principal
Ising Calibration VLM (Vision Language Model) 35 bilhões 15x menor que alternativas; calibração em horas
Ising Decoding (velocidade) CNN 3D 0,9 milhão 2,5x mais rápido que pyMatching
Ising Decoding (precisão) CNN 3D 1,8 milhão 3x mais preciso; 10x menos dados de treino

Onde os modelos estão disponíveis

Os modelos Ising foram publicados no GitHub, no Hugging Face e na plataforma build.nvidia.com.

Eles se integram ao CUDA-Q, a plataforma de software quântico da NVIDIA compatível com diferentes modalidades de qubits, e ao NVQLink, a arquitetura de interconexão QPU-GPU de baixa latência apresentada pela empresa em outubro do ano passado.

Divulgação/NVIDIA

Apesar de os modelos serem open-source, a infraestrutura ao redor deles é proprietária. O Ising Decoding depende do NVQLink para transmitir dados de medição à GPU dentro da janela de decodificação. Os fluxos de calibração passam pelo CUDA-Q, e as ferramentas de implantação são voltadas exclusivamente para hardware da NVIDIA.

Adoção por laboratórios e empresas do setor

O Ising já está sendo utilizado por algumas das instituições mais relevantes do campo quântico.

Divulgação/NVIDIA

Entre os parceiros confirmados estão o Fermilab, a Universidade Harvard, o UK National Physical Laboratory, o Lawrence Berkeley National Laboratory por meio do Advanced Quantum Testbed, além das empresas IQM Quantum Computers, Infleqtion e IonQ, que aplica o Ising Calibration diretamente em seus sistemas.

A estratégia da NVIDIA no ecossistema quântico

O lançamento do Ising segue um padrão já consolidado pela NVIDIA em outras iniciativas, como o Nemotron, o Cosmos e o GR00T: abrir os modelos ao público enquanto mantém proprietária a plataforma ao redor.

Com isso, a empresa aprofunda sua presença no setor quântico sem precisar construir hardware quântico próprio, criando dependência de GPU em toda a cadeia de trabalho.

A NVIDIA enquadra explicitamente as cargas de trabalho quânticas como cargas de trabalho de IA, posicionando seus processadores gráficos como infraestrutura indispensável no caminho dos chamados supercomputadores quântico-GPU, sistemas híbridos que combinam QPUs e GPUs operando em conjunto.

Leia também:

O open-source com correntes proprietárias

A distância entre um erro a cada mil operações e um erro a cada trilhão ainda é enorme, mas reduzir o tempo de calibração de dias para horas e tornar a correção de erros mais rápida e precisa são avanços concretos que mudam o ritmo do desenvolvimento experimental.

Para grupos de pesquisa que dependem do pyMatching e enfrentam longas calibrações manuais, o Ising representa ganho imediato de produtividade. A pergunta que permanece é se a dependência gerada pela plataforma proprietária da NVIDIA, embutida em um modelo distribuído como aberto, será aceita por um setor historicamente comprometido com a independência científica.

Abrir o modelo, mas fechar a estrada que leva até ele, é uma estratégia eficaz de expansão, e a NVIDIA já provou que sabe muito bem como executá-la

Fonte(s): NVIDIA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima