Greve na Samsung pode agravar crise de DRAM e causar prejuízo de US$ 20 bilhões

A Samsung está diante de um dos conflitos trabalhistas mais graves de sua história, e o mercado global de memória observa a situação com crescente apreensão.

O sindicato dos trabalhadores da empresa anunciou uma greve de 18 dias, com início previsto para 21 de maio, que pode interromper a produção da maior fabricante de chips de memória do mundo e gerar perdas estimadas em 30 trilhões de won, equivalentes a cerca de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 99,6 bilhões na cotação atual, sem considerar variações cambiais).

O que os trabalhadores exigem

No centro do conflito está a remuneração variável. O sindicato, que representa cerca de 74.000 trabalhadores e conquistou recentemente o status de representação majoritária, exige que a Samsung destine 15% do lucro operacional anual ao pagamento de bônus, além de um reajuste salarial de 7% e a extinção do teto atual que limita o bônus de desempenho a 50% do salário-base anual.

A demanda pelo bônus equivale a aproximadamente US$ 30 bilhões (cerca de R$ 149,4 bilhões), com base no lucro operacional projetado da companhia.

O lucro operacional da Samsung no primeiro trimestre de 2026 cresceu 755% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionado pela demanda explosiva por chips de memória para aplicações de inteligência artificial.

O sindicato aponta a rival SK Hynix como referência. A empresa removeu o teto de bônus em setembro passado e prometeu destinar 10% do lucro operacional a dividendos.

Com lucro projetado de 250 trilhões de won em 2026, a SK Hynix deve pagar bônus médios de cerca de 700 milhões de won por funcionário (aproximadamente US$ 400.000, ou R$ 2 milhões).

Segundo cálculos do próprio sindicato da Samsung, os bônus pagos aos trabalhadores da divisão de chips da empresa são inferiores a um terço dos valores praticados pela concorrente.

O presidente do sindicato, Choi Seung-ho, revelou que mais de 200 funcionários da divisão de semicondutores migraram para a SK Hynix nos últimos quatro meses, um sinal concreto de que a defasagem salarial já tem consequências operacionais.

Manifestação em Pyeongtaek e queda imediata na produção

Em 23 de abril, o sindicato realizou um grande ato de protesto no campus de Pyeongtaek, principal hub de produção de memória da Samsung, em Gyeonggi, Coreia do Sul.

A polícia estimou a presença de cerca de 30.000 pessoas; o sindicato afirma que o número chegou a 40.000 participantes, representando aproximadamente um terço da força de trabalho das fábricas de semicondutores da empresa.

Divulgação/Samsung

Os efeitos foram imediatos: segundo dados do sindicato citados pelo Seoul Economic Daily, a produção dos fabs de memória caiu 18,4% e as linhas de fundição caíram 58,1% durante o turno da noite após o protesto. Os números se referem apenas a uma ação de um dia; uma paralisação formal e prolongada teria impacto muito mais profundo.

“Esta questão de greve servirá como variável-chave que aprofundará a escassez de oferta em meio a condições já apertadas de memória e intensificará ainda mais a pressão de alta nos preços”

Kim Dong-won, chefe de pesquisa da KB Investment & Securities

Por que 18 dias podem virar 36

O aspecto mais preocupante para a cadeia global de abastecimento não é a duração formal da greve, mas o tempo de recuperação.

Quando as atividades rotineiras de configuração e manutenção dos equipamentos semicondutores são interrompidas por períodos prolongados, o retorno à produção normal costuma levar o dobro do tempo da paralisação.

Assim, uma greve de 18 dias pode resultar em mais de 36 dias sem produção plena, ou seja, mais de um mês de impacto efetivo no fornecimento.

Os produtos mais suscetíveis a esse cenário são o DRAM de alto desempenho para servidores e os SSDs enterprise (eSSD), justamente os segmentos com maior demanda em razão da expansão acelerada de Data Centers de IA.

A Samsung também sinalizou que, nesse contexto, só cumprirá pedidos já firmados de LPDDR4, sem aceitar novas encomendas desse tipo de memória.

Impacto global na cadeia de semicondutores

A Samsung detém aproximadamente 40% do mercado global de DRAM e cerca de 30% do mercado de NAND flash. Uma interrupção da produção nessa escala não ficaria restrita à Coreia do Sul.

Analistas do setor estimam que uma greve poderia reduzir a oferta global de DRAM em 3% a 4% e de NAND em 2% a 3%, num momento em que os preços já estão em trajetória de alta consistente.

Divulgação/Samsung

Segundo a TrendForce, os preços de DRAM devem continuar subindo no segundo trimestre de 2026, e uma greve ampliaria ainda mais essa pressão. Fabricantes de PCs já reagiram ao cenário: segundo a DigiTimes, alguns montadores aumentaram seus estoques de componentes em até 50% como medida preventiva.

Já as fabricantes de TVs alertam que uma eventual duplicação nos custos de memória teria reflexo direto nos preços finais ao consumidor.

SK Hynix e Micron poderiam absorver parte da demanda não atendida pela Samsung, mas analistas são cautelosos: a capacidade ociosa dessas empresas não seria suficiente para compensar o volume que a Samsung representa no mercado global.

Negociações travadas, prazo se aproxima

A administração da Samsung se comprometeu publicamente a buscar acordos rápidos, mas rejeitou a extinção do teto de bônus. O ponto central das exigências sindicais. As conversas permanecem em impasse, e o prazo de 21 de maio se aproxima sem sinais concretos de avanço.

A empresa também recorre ao sistema judiciário paralelamente às negociações, o que acirra ainda mais o clima entre as partes. Em 2024, a Samsung enfrentou sua primeira greve da história, com a paralisação de julho durando três dias antes de ser estendida indefinidamente, mas com participação de apenas 15% dos filiados ao sindicato.

Desta vez, os números projetados são de 30% a 40% do total de membros, tornando o impacto potencial incomparável com o episódio anterior.

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O salário como risco sistêmico

A disputa entre a Samsung e seus trabalhadores transcende os portões da fábrica em Pyeongtaek.

Com 70% dos chips de memória de alto desempenho produzidos mundialmente consumidos por Data Centers de IA, qualquer interrupção relevante na cadeia de fornecimento chega rapidamente a Silicon Valley, às montadoras de servidores e aos consumidores finais.

O que começou como uma negociação salarial acirrada se converteu em uma variável macroeconômica com capacidade de pressionar preços, atrasar produtos e reorganizar contratos em escala global.

Analistas ainda veem espaço para um acordo antes de maio, mas a disposição da gestão da Samsung em ceder, até agora, é nenhuma.

Fonte(s): WCCFTech

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