Após imposto, importação de pequeno valor cai ao menor patamar desde 2021

As mudanças trazidas pelo novo imposto sobre a importação de pequeno valor já causam forte impacto no comércio internacional brasileiro. Um ano após a aplicação da chamada “taxa das blusinhas”, as compras de pequeno valor vindas do exterior atingiram o menor nível desde 2021, refletindo diretamente o encarecimento das encomendas feitas em plataformas como Aliexpress, Shein, Shopee e Temu.

Segundo dados do Banco Central, as importações realizadas por meio de facilitadoras de pagamento totalizaram US$ 4,6 bilhões no primeiro semestre de 2025. O valor representa uma queda de 13,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior, antes da cobrança do imposto de 20% sobre compras de até US$ 50.

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A nova regra entrou em vigor em agosto de 2024, eliminando a isenção anterior para remessas internacionais de até US$ 50. Além do imposto de importação, também passou a incidir o ICMS, variando entre 17% e 20%, conforme o estado. Com isso, a carga tributária total pode chegar a 40%, aproximando os preços dos produtos estrangeiros aos disponíveis no mercado interno.

Com a taxação, muitos consumidores passaram a reavaliar se realmente vale a pena esperar semanas por um produto que agora custa quase o mesmo que uma opção nacional”, afirma Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail.

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Esse movimento se insere em um cenário mais amplo de revisão tributária, no qual políticos brasileiros, como Guilherme Boulos, já propuseram um novo imposto para big techs como Google e Meta, com o objetivo de tributar grandes empresas digitais que lucram com dados e publicidade no país.

Classes mais baixas foram as mais afetadas

Um estudo da Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) apontou que as classes C, D e E foram as mais impactadas pela nova cobrança. Nos primeiros oito meses após a entrada em vigor da taxa, o volume de compras internacionais nessas faixas caiu 35%, o que equivale a cerca de 14 milhões de pessoas deixando de importar.

O impacto foi três vezes maior do que o registrado nas classes A e B, onde a redução foi de 11% — aproximadamente 4 milhões de consumidores. A desistência de compra ao final do processo de checkout também aumentou: 45% dos consumidores de menor renda desistiram da aquisição ao ver o valor total com taxas, e 40% não compraram o item em nenhuma outra plataforma.

Comércio nacional aproveita o momento

Com o declínio nas importações, o comércio nacional ganhou fôlego. Dados do IBGE, analisados pelo Santander, mostram que, no terceiro trimestre de 2024, as vendas de vestuário no Brasil cresceram 6% em relação ao ano anterior. No mesmo período, redes como Riachuelo, Renner e C&A registraram aumentos de 11%, 12% e 19%, respectivamente.

O prazo de entrega passou a pesar mais na decisão de compra. Antes, o consumidor aceitava esperar até 30 dias por causa do preço. Agora, com a taxação, ele prefere pagar um pouco mais e receber antes”, explica Fernando Hidalgo, presidente da ABComm.

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No cenário internacional, medidas semelhantes à brasileira também ganharam destaque. Durante seu governo, Donald Trump chegou a ameaçar o Brasil com uma tarifa de 50% sobre produtos nacionais, em resposta a conflitos comerciais com outros países.

Empresas estrangeiras se adaptam à nova realidade

Plataformas internacionais também precisaram se adaptar. A Shopee, por exemplo, já tem mais de 90% de suas vendas feitas por vendedores locais. Shein e Temu seguem o mesmo caminho e estão recrutando comerciantes brasileiros para reforçar suas operações locais e reduzir a dependência das remessas internacionais.

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O programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, já vinha sinalizando essa transição. Ao permitir o recolhimento antecipado de tributos e certificação de empresas de e-commerce, o sistema buscava, segundo o governo, melhorar a fiscalização e reduzir a sonegação, além de equilibrar a competição com o varejo nacional.

Arrecadação do governo dispara com nova cobrança

Enquanto os volumes caem, a arrecadação sobe. A Receita Federal arrecadou R$ 2,7 bilhões com o imposto de importação sobre remessas internacionais em 2024, o que representa um crescimento de 40,7% em relação ao ano anterior.

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Ainda no debate tributário, o Congresso Nacional recentemente vetou o aumento do IOF, o que mostra que, apesar da alta na arrecadação com importações, há resistência política em elevar outros tributos que afetem diretamente o consumo.

Mudança de hábito e maior valorização do produto nacional

Além da questão econômica, há também um impacto cultural. A frequência com que o consumidor brasileiro realizava compras internacionais caiu, alterando hábitos e reforçando o valor de marcas locais. Com o custo total das importações se aproximando do praticado no Brasil, fatores como confiabilidade, prazo de entrega e pós-venda se tornam decisivos.

Com isso, o e-commerce nacional também colhe frutos. Mesmo com a queda nas importações, o setor teve crescimento de 10% no faturamento geral em 2024, segundo a ABComm, resultado impulsionado pelo aumento das compras internas.

Fonte: Folha

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