Fim dos transistores? Avanço quântico promete chips mais rápidos e econômicos

O fim dos transistores pode estar mais próximo do que a indústria de semicondutores imaginava.

Uma equipe da Universidade de Tóquio apresentou na última sexta-feira (15) um dispositivo de comutação que dispensa o transistor tradicional e usa o spin de elétrons para representar zeros e uns, com velocidade de 40 picossegundos por operação e consumo de energia ordens de grandeza menor que o das tecnologias atuais.

O trabalho foi publicado na revista científica Science sob o título “Picosecond ultralow-power switching device based on an antiferromagnet” e descreve o que os autores chamam de elemento de chaveamento quântico não volátil.

Em vez de abrir e fechar a passagem de corrente como um interruptor minúsculo, a nova estrutura altera a direção do spin de elétrons individuais dentro de uma camada magnética para gravar e ler informação.

Por que o transistor está chegando ao limite

O transistor sustenta praticamente toda a computação moderna: em circuitos digitais, ele se comporta como uma chave controlada por tensão: ligada, permite a passagem de corrente; desligada, bloqueia.

Esses dois estados elétricos formam a base do sistema binário e dos portões lógicos que fazem qualquer processador funcionar. Um chip Apple M4 atual, por exemplo, empacota cerca de 28 bilhões dessas chaves.

O problema é que processar mais dados exige mais transistores e processá-los mais rápido exige que cada chave alterne em frações de tempo cada vez menores. As fabricantes vêm enfrentando essa equação com miniaturização agressiva há décadas, mas o método esbarra em limites físicos.

O principal deles é o calor… Quando a corrente alterna em alta frequência, a dissipação térmica cresce na mesma proporção, e parte significativa da energia consumida por um processador vira simplesmente temperatura. Quanto mais rápido o chip, mais energia se perde nesse processo.

Como o novo dispositivo funciona

A proposta da equipe japonesa abandona o conceito de chave elétrica e passa a operar com uma propriedade quântica chamada spin.

O spin é uma característica intrínseca do elétron que pode assumir dois estados, frequentemente descritos como “para cima” ou “para baixo”. Esses dois estados servem para codificar 1 e 0 da mesma forma que a passagem ou o bloqueio de corrente no transistor.

O dispositivo combina o antiferromagneto Mn3Sn, uma liga de manganês e estanho, com uma camada de tântalo. Pulsos elétricos extremamente curtos atravessam a heteroestrutura e provocam a inversão do spin por meio de um efeito conhecido como torque spin-órbita, o mesmo princípio aplicado em memórias MRAM comerciais.

Divulgação/Universidade de Tóquio

A diferença é que aqui o pulso elétrico dura apenas 40 picossegundos, contra os nanossegundos exigidos pelas tecnologias atuais.

A escala envolvida é difícil de visualizar. Um picossegundo equivale a um trilionésimo de segundo, ou 10⁻¹² segundos. Os processadores mais rápidos disponíveis hoje precisam de algo na casa do nanossegundo, ou 10⁻⁹ segundos, para realizar a mesma operação. A diferença é de várias ordens de grandeza.

“Desenvolver um dispositivo de comutação não volátil ultrarrápido e energeticamente eficiente pode causar forte impacto sobre arquiteturas computacionais emergentes. A velocidade de processamento estagnou no regime de nanossegundos porque acelerar mais exige potência de escrita excessivamente alta.”

Memória não volátil e durabilidade

Além da velocidade, o experimento traz duas vantagens estruturais importantes para componentes de Hardware do futuro.

Divulgação/Universidade de Tóquio

A primeira é a natureza não volátil do dispositivo: os elétrons mantêm o estado de spin atribuído até que algo o altere, o que significa que a informação permanece armazenada mesmo sem alimentação elétrica. Memória DRAM, em contraste, precisa de energia constante para preservar dados.

A segunda vantagem é a durabilidade; o paper relata que o elemento de chaveamento permaneceu estável após 100 bilhões de transições, número várias ordens de grandeza superior ao das tecnologias correntes, em que o calor causa degradação progressiva até a falha.

As duas características aproximam o dispositivo de aplicações práticas em arquiteturas que combinam memória e processamento, área em que a indústria vem buscando alternativas ao paradigma de Von Neumann por causa do gargalo entre CPU e RAM.

Divulgação/Universidade de Tóquio

Comparativo com tecnologias atuais

Parâmetro Transistor convencional Dispositivo Mn3Sn (Tóquio)
Tempo de chaveamento ~1 nanossegundo 40 picossegundos
Diferença de escala 10⁻⁹ s 10⁻¹² s (25x mais rápido em pulso elétrico)
Geração de calor Alta em alta frequência Reduzida (sem aquecimento severo)
Volatilidade Volátil (DRAM) ou parcial Não volátil
Endurance reportada Variável, com degradação por calor 100 bilhões de transições estáveis
Mecanismo Tensão controla corrente Torque spin-órbita inverte spin

Por que a indústria de chips pode se interessar

O ponto mais sensível do trabalho não é a manchete dos 1.000x mais rápido, mas algo mais prático para infraestrutura de inteligência artificial: a equipe demonstrou uma forma de inverter um estado magnético binário em escala de picossegundo sem depender do regime térmico que torna os chips rápidos atuais difíceis de escalar.

É exatamente o tipo de barreira que pressiona o desempenho dos aceleradores de IA em Data Centers.

Divulgação/Universidade de Tóquio

O paper menciona ainda outra capacidade: o chaveamento funciona via fotocorrente, abrindo caminho para conversão direta de sinais ópticos em elétricos.

Isso interessa à computação fotônica, área em que pesos pesados como Intel, NVIDIA e startups especializadas vêm investindo para destravar comunicação chip-a-chip em alta velocidade.

A pesquisa foi liderada por Hanshen Tsai, Takuya Matsuda e Satoru Nakatsuji, do Trans-scale Quantum Science Institute da Universidade de Tóquio, com colaboração de pesquisadores do RIKEN, Universidade de Osaka e Johns Hopkins.

O que falta para chegar ao consumidor

Os próprios autores reconhecem que o experimento é uma prova de conceito, visto que não há ainda garantia de que chips comerciais usando essa abordagem possam ser fabricados de forma economicamente viável, integrados a processos CMOS existentes ou produzidos em escala consistente em milhões de unidades por wafer.

O Mn3Sn é um material relativamente novo no âmbito da spintrônica aplicada, sua integração com linhas de produção que hoje processam Silício envolve desafios de compatibilidade térmica, contaminação e rendimento que costumam levar uma década entre o paper acadêmico e o produto na prateleira.

Divulgação/Universidade de Tóquio

Próximos passos da pesquisa

A equipe da Universidade de Tóquio já vinha demonstrando avanços incrementais com o Mn3Sn há alguns anos.

Em 2020, o mesmo grupo publicou na Nature o primeiro caso de manipulação elétrica de um estado antiferromagnético topológico nesse material. Em dezembro de 2025, um outro time da universidade, liderado por Ryo Shimano, visualizou o processo de chaveamento ocorrendo em 140 picossegundos por meio de imagens ultrarrápidas com efeito Kerr magneto-óptico.

O artigo publicado agora avança esse trabalho ao registrar comutação ainda mais rápida, com consumo reduzido e em um dispositivo concreto, não apenas em medições laboratoriais isoladas.

“A próxima fase passa por engenharia de processos, integração com transistores convencionais em arquiteturas híbridas e teste de uniformidade em larga escala.”

A combinação de velocidade no regime de picossegundos com endurance bilionária e ausência de necessidade de refresh constante torna o dispositivo um candidato natural para substituir SRAM em cache de processadores e DRAM em sistemas que demandam baixa latência, dois mercados de centenas de bilhões de dólares por ano.

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Spintrônica entra na disputa pelos próximos chips

A descoberta reforça uma corrida que vinha em segundo plano frente ao avanço da litografia EUV e do empilhamento 3D. Spintrônica, computação fotônica, memristores e dispositivos baseados em materiais 2D disputam espaço como herdeiros do transistor de Silício, e cada nova publicação científica relevante reorganiza apostas em laboratórios corporativos e universidades.

O fato de o demonstrador japonês operar à temperatura ambiente, sem necessidade de resfriamento criogênico como exigem os computadores quânticos tradicionais, é o que separa este tipo de pesquisa do nicho dos qubits supercondutores. O dispositivo se comporta como componente clássico, com codificação binária definida, e poderia teoricamente coexistir com a arquitetura digital atual.

A janela para que isso vire produto comercial ainda é longa, mas é a primeira vez que um experimento reúne, no mesmo dispositivo, 40 picossegundos de comutação, baixíssimo consumo, 100 bilhões de ciclos sem falha e operação não volátil. Esses quatro fatores juntos não existiam até agora em nenhuma tecnologia conhecida fora do Silício.

Fonte(s): Science e Universidade de Tóquio
Tsai, H. et al. “Picosecond ultralow-power switching device based on an antiferromagnet”. Science, 15 de maio de 2026. DOI: 10.1126/science.adt3136

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