Um entusiasta de impressão 3D transformou um Nintendo Switch com sistema desbloqueado em controlador de uma Prusa MK3S e reduziu o tempo de impressão do modelo de referência 3DBenchy de 90 minutos para 8 minutos e 41 segundos, um ganho próximo de 90% usando a impressora 3D.
O experimento foi publicado pelo canal Cocoanix 3D Printing e mostra o portátil da Nintendo rodando Ubuntu Linux junto ao firmware Klipper, acoplado à impressora por cabo USB.
A escolha do console funciona como provocação visual, mas o ponto técnico vai além do meme: a Prusa MK3S, que segue ativa em comunidades de impressão 3D, é limitada pelo microcontrolador de 8 bits da placa Einsy, responsável por calcular trajetórias, aceleração e controle de passos dos motores.
Ao transferir esse cálculo para um processador moderno, a impressora ganha fôlego para trabalhar em velocidades que a eletrônica original sequer conseguiria interpretar.
O que o Switch faz que a impressora não consegue
O console da Nintendo carrega um SoC NVIDIA Tegra X1 com quatro núcleos ARM Cortex-A57 de 64 bits operando a até 2 GHz, 2 MB de cache L2 compartilhado e 4 GB de memória LPDDR4.
Os dados constam do switchbrew, principal wiki técnica da comunidade homebrew do aparelho. Para fins de comparação, o microcontrolador original da MK3S é um Atmel de 8 bits da família AVR, projetado para tarefas pontuais, não para resolver matrizes de movimento em tempo real.
A diferença de classe é grande o bastante para mudar a relação de gargalo da máquina. Com o Switch assumindo o cálculo, o limite deixa de ser a eletrônica e passa a ser o conjunto mecânico, especialmente hotend, extrusor e refrigeração.
Como o Klipper redistribui o trabalho
O ganho não vem da Nintendo. Vem do Klipper, firmware de código aberto que separa o cérebro da máquina em duas partes. Um computador externo, conhecido como host, processa o G-code e calcula a movimentação. A placa da impressora vira apenas executora, recebendo instruções já mastigadas e acionando os motores de passo no tempo certo.
A arquitetura é o oposto do modelo tradicional do Marlin, que tenta fazer tudo no próprio microcontrolador embarcado. Em geral, esse host é um Raspberry Pi.
No experimento do Cocoanix, é um Switch com Ubuntu Linux instalado, conectado à MK3S por uma porta USB. O ambiente é controlado pelo dashboard web Mainsail (ou Fluidd, alternativa equivalente), acessado de qualquer navegador na rede local.

Outro componente decisivo é o Input Shaper, técnica de compensação de ressonância documentada na referência oficial do Klipper.
O algoritmo introduz pequenos pulsos contrários no comando enviado aos motores, calculados para cancelar a vibração natural do chassi quando o cabeçote acelera ou inverte direção.
Isso elimina o efeito visual conhecido como ringing ou ghosting, ondulações fantasmas que aparecem ao lado de cantos vivos quando se imprime rápido.
Em vídeo, Cocoanix descreve a arquitetura em termos diretos:
“Pedir para o Marlin rodar em um microcontrolador é mais ou menos como pedir para uma calculadora rodar uma planilha.”
A frase resume a tese central da modificação: a peça da Prusa é boa, o microcontrolador é que pede aposentadoria.
Os números do teste com a 3DBenchy
A 3DBenchy é o pequeno barco usado mundialmente como prova padrão de calibração.
Existe inclusive uma versão de regras conhecida como SpeedBenchy, com parâmetros pré-definidos de altura de camada, perímetros e infill, para que diferentes impressoras possam ser comparadas em condições equivalentes.
Foi com essa configuração que Cocoanix cronometrou os 8 minutos e 41 segundos:
| Configuração | Tempo da 3DBenchy | Velocidade máxima | Aceleração máxima |
|---|---|---|---|
| Prusa MK3S original | ~90 minutos | Padrão de fábrica | Padrão de fábrica |
| Prusa MK3S + Klipper no Switch | 8 min 41 s | 400 mm/s | 17.000 mm/s² |
A combinação de 400 mm/s com 17.000 mm/s² de aceleração coloca a MK3S em outro patamar.
A peça final ainda apresenta alguns defeitos visíveis, o que o próprio autor associa às limitações do hotend, do extrusor e da refrigeração originais, somadas ao formato bed slinger da impressora, no qual a mesa se move no eixo Y.
São pontos físicos que nenhum firmware consegue corrigir.

Pressure Advance e por que isso melhora a qualidade
Velocidade alta sem ajuste fino entrega impressão suja… A segunda peça-chave do Klipper se chama Pressure Advance, recurso documentado na página oficial do firmware.
Ele controla a pressão dentro do bico aquecido durante acelerações e desacelerações, empurrando uma fração extra de filamento antes de uma curva e recuando levemente o material antes de o cabeçote frear.
O resultado prático é menos blob nas quinas, menos stringing e largura de linha mais constante ao longo do trajeto.
Com Input Shaper e Pressure Advance ativos, a MK3S consegue manter qualidade aceitável em velocidades nas quais o firmware original simplesmente travaria ou produziria um borrão. O salto não está apenas em fazer mais rápido, está em fazer mais rápido sem perder a peça.

Por que o Switch e não um Raspberry Pi
A escolha do console é estética, não técnica. O próprio Cocoanix admite no vídeo que, para a maioria dos usuários, um Raspberry Pi continua sendo a opção mais sensata, mais barata e mais documentada.
A graça do Switch está em três pontos: o quad-core Cortex-A57 entrega potência mais que suficiente para o Klipper, o aparelho já tem tela touchscreen integrada (útil para controle direto sem segundo monitor) e o procedimento de instalação aproveita o ecossistema de homebrew que existe há anos em torno da plataforma.
Vale o registro de que o método depende de um Switch suscetível ao exploit clássico, normalmente as unidades fabricadas antes da correção de hardware feita pela Nintendo.
O console fica em modo dual boot, alternando entre o sistema oficial e o Linux conforme o usuário decide.
Não há modificação permanente do firmware original e a operação não envolve o Switch 2, que possui proteções diferentes e cuja cena de modificação ainda engatinha.

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Conclusão técnica do experimento
A redução de 90 minutos para menos de nove não significa que toda Prusa MK3S vai imprimir dez vezes mais rápido em qualquer panorama.
O ganho aparece nas peças relativamente pequenas e dentro de um envelope de aceleração agressivo. Em modelos grandes, com muitas camadas e mudanças bruscas de direção, o hotend volta a ser o teto. A própria 3DBenchy é uma peça curta justamente para servir de termômetro.
O experimento também serve como argumento contra a obsolescência programada na impressão 3D. A MK3S foi sucedida pela MK3.5, pela MK4 e pela MK4S, modelos novos que já trazem placas 32 bits e suporte nativo a input shaping no firmware da própria Prusa.
Trocar de máquina é caminho oficial; instalar Klipper em uma MK3S é caminho alternativo que mantém o equipamento competitivo por mais tempo, ao custo de perder funcionalidades específicas do ecossistema da fabricante, como o MMU3 para impressão multimaterial.
Para o usuário final, fica uma pergunta prática que envolve hardware antigo, custo e tempo de configuração. Um Raspberry Pi Zero 2 W resolve o problema por cerca de 20 dólares (algo em torno de R$ 99, com base na cotação comercial atual perto de R$ 4,95, sem considerar impostos brasileiros nem taxas de importação). Um Nintendo Switch já desbloqueado em uma gaveta resolve o mesmo problema por zero dólar adicional.
O barco impresso em 8 minutos é, no fim das contas, um experimento publicado por um criador de conteúdo, mas a base técnica é sólida: Klipper, Input Shaper e Pressure Advance são ferramentas maduras, com documentação extensa e comunidade ativa. O Switch é só o detalhe que rendeu a manchete.
Fonte(s): Cocoanix 3D Printing