A indústria de semicondutores registrou US$ 298,5 bilhões em vendas globais no primeiro trimestre de 2026, segundo dados divulgados pela Semiconductor Industry Association (SIA).
O número representa alta de 25% em relação ao quarto trimestre de 2025 e coloca o setor a caminho de bater a marca de US$ 1 trilhão até o fim do ano, conforme projeção da própria entidade.
A receita do trimestre, próxima de R$ 1,48 trilhão na cotação atual, contempla a venda de chips lógicos, memórias, analógicos, sinais mistos e outras categorias. Apenas no mês de março, o faturamento somou US$ 99,5 bilhões (cerca de R$ 493 bilhões), o que equivale a um salto de 79,2% sobre o mesmo mês de 2025 e de 11,5% na comparação com fevereiro deste ano.
Trimestre que pôs o setor próximo do trilhão
Os números mensais são apurados pela World Semiconductor Trade Statistics (WSTS) e expressam uma média móvel de três meses. A SIA representa 99% das companhias de semicondutores sediadas nos Estados Unidos e cerca de dois terços das fabricantes de chips fora do território americano, o que sugere que o volume real movimentado pelo setor é ainda maior.
Vale o lembrete de que parte da indústria escapa do levantamento. Empresas verticalmente integradas, como Apple, Bosch, Huawei, Sony e Tesla, não publicam dados separados sobre seus semicondutores. Várias companhias chinesas também não compartilham balanços com a entidade americana.
Para efeito de comparação, o setor fechou 2025 com US$ 791,7 bilhões em vendas globais, o maior resultado anual da história até então, com crescimento de 25,6% sobre 2024. Se a previsão de US$ 1 trilhão se confirmar, será mais um salto de cerca de 26% em apenas doze meses.
Crescimento se espalha por quase todas as regiões
O dado de março mostra que o avanço não se concentrou em um único mercado. A região Ásia-Pacífico (excluindo China e Japão) liderou a alta anual, com crescimento de 108,5% em relação a março de 2025.
As Américas vieram logo atrás, com expansão de 83,1%, seguidas pela China, com 74,8%. Apenas o Japão ficou abaixo dos dois dígitos, com avanço de 7,4%.
| Região | Variação anual (mar/26 vs mar/25) | Variação mensal (mar/26 vs fev/26) |
|---|---|---|
| Ásia-Pacífico/Outros | +108,5% | +9,8% |
| Américas | +83,1% | +13,3% |
| China | +74,8% | +12,7% |
| Europa | +46,5% | +8,4% |
| Japão | +7,4% | +7,1% |
A leitura mês a mês reforça o quadro. Todas as cinco grandes regiões cresceram em março frente a fevereiro, com destaque para Américas (+13,3%) e China (+12,7%). É um padrão raro de demanda alta e disseminada ao mesmo tempo.
John Neuffer, presidente e CEO da SIA, resumiu o momento ao comentar os números:
“As vendas globais de chips seguem no rumo de US$ 1 trilhão em 2026.”
John Neuffer, presidente e CEO da SIA
O executivo creditou o desempenho à força das vendas na Ásia-Pacífico, nas Américas e na China, regiões que puxaram o crescimento do mercado mundial.
IA é o motor por trás do salto
A explicação por trás dos números aparece em quase toda análise recente do setor: o superciclo movido pela inteligência artificial. Os chips lógicos, categoria que inclui as GPUs de data center da NVIDIA e os aceleradores da AMD e da Intel, fecharam 2025 como o maior segmento do mercado, com US$ 301,9 bilhões em receita e crescimento anual de 39,9%.
O efeito desse boom já reorganizou a fila das fundições. A TSMC tem capacidade de 2nm reservada até o final de 2026 e elevou os preços dos wafers em processos avançados a partir de janeiro deste ano. A NVIDIA estaria reduzindo entre 30% e 40% a produção de placas GeForce na primeira metade de 2026 para liberar espaço a chips de IA, que oferecem margens muito maiores.
A Micron, em sua mais recente teleconferência de resultados, foi direta: a escassez de DRAM deve persistir além de 2026. Mesmo com as novas fábricas em Idaho e Nova York em desenvolvimento, a empresa estima que só conseguirá atender entre metade e dois terços da demanda dos clientes principais.

Memórias puxam mais do que tudo
O segmento de memórias merece destaque dentro do salto recorde. As vendas globais da categoria fecharam 2025 em US$ 223,1 bilhões, com crescimento anual de 34,8%. E os preços continuam pressionando para cima.
Uma pesquisa da TrendForce indica que os contratos de DRAM convencional avançaram entre 90% e 95% no primeiro trimestre de 2026 frente ao trimestre anterior. A previsão para o segundo trimestre é de mais 63% na DRAM e até 75% nos contratos de memória flash NAND. Pela primeira vez no ciclo atual, o aumento da NAND deve superar o da DRAM.
Há um detalhe que ajuda a dimensionar o peso desse segmento: a TrendForce projeta que apenas as fabricantes de memórias RAM faturarão US$ 551,6 bilhões em 2026, mais do que o dobro do que a consultoria estima para receitas globais com chips voltados a IA e consumidores juntas.
As três grandes do setor (Samsung, SK hynix e Micron) seguem priorizando contratos de longo prazo com hyperscalers em vez do varejo.
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Trilhão depende do gargalo de IA
A casa do trilhão tem um asterisco. Boa parte do salto vem de preços maiores, e não apenas de mais unidades vendidas. Os contratos plurianuais que provedores de nuvem assinaram para travar acesso a HBM e DRAM sustentam receita, mas reduzem a pressão para que a oferta cresça no ritmo da demanda.
O outro lado é que a expansão real de capacidade demora. As fábricas da Micron em Idaho começam a produzir só em meados de 2027, e a planta em Nova York deve iniciar operações por volta de 2030. Linhas de 2nm da TSMC já estão totalmente reservadas, com a Apple ocupando cerca de metade.
Se o algoritmo TurboQuant do Google, que reduz em até seis vezes os requisitos de memória para cargas de IA, vingar em larga escala, o ritmo de gasto pode mudar.
Por enquanto, o trilhão de dólares projetado pela SIA para 2026 depende menos da demanda de notebooks e celulares e mais do quanto NVIDIA, AMD e os hyperscalers conseguirão consumir antes que a oferta consiga responder.
Fonte(s): Semiconductor Industry Association e SIA – balanço anual de 2025