Microsoft libera código do 86-DOS, sistema que deu origem ao Windows

A Microsoft disponibilizou o código-fonte do 86-DOS 1.00 como projeto de código aberto no GitHub, marcando os 45 anos do software escrito por Tim Paterson em 1981.

O material, hospedado no repositório público DOS-History/Paterson-Listings sob licença MIT, reúne o kernel original, várias versões pré-lançamento do PC-DOS 1.00, utilitários conhecidos como o CHKDSK e até o assembler usado para compilar o próprio sistema. A liberação foi anunciada em 28 de abril de 2026 no blog oficial Microsoft Open Source.

A relevância do material vai além da curiosidade técnica. O 86-DOS, originalmente batizado como QDOS (Quick and Dirty Operating System) na Seattle Computer Products, é o ancestor direto do MS-DOS, base sobre a qual a Microsoft construiu o Windows e seu domínio no mercado de computadores pessoais nas décadas seguintes.

Da garagem de Paterson para o GitHub

A história da preservação tem um ingrediente curioso. As listagens mais antigas do código foram recuperadas de papéis de impressora guardados na garagem do próprio Tim Paterson, conforme revelou Scott Hanselman, vice-presidente da Microsoft e GitHub, em publicação no Bluesky.

O acervo, com cerca de dez centímetros de altura em folhas contínuas verde-e-branco, passou por um processo de localização, digitalização e transcrição conduzido pelos pesquisadores Yufeng Gao e Rich Cini.

Os documentos preservam um carimbo temporal preciso da evolução do sistema. O kernel do 86-DOS 1.00 foi datado de 15 de junho de 1981, enquanto uma versão beta do PC-DOS 1.00 traz a marca de 7 de julho do mesmo ano.

Arquivos de diferenças, como o 86DOS.DIF, mostram exatamente quais alterações foram feitas entre versões, incluindo correções de bugs e adição de funcionalidades.

“Estamos animados em apresentar materiais de código-fonte recém-disponibilizados que oferecem uma visão ainda mais antiga do desenvolvimento do PC-DOS 1.00, o primeiro lançamento do DOS para o IBM PC”

Stacey Haffner, diretora do escritório de código aberto da Microsoft

O que está incluído no repositório

O acervo disponível no GitHub está organizado em três níveis de acesso, do material bruto até o código compilável.

Pasta Conteúdo
1_transcription Transcrição das listagens, basicamente a saída bruta da impressora
2_printed_files Arquivos originais que foram impressos, extraídos da transcrição
3_source_code Código-fonte compilável e pronto para montagem

Além do kernel do 86-DOS 1.00 e dos snapshots do PC-DOS 1.00, o repositório traz a biblioteca de tempo de execução do compilador Microsoft BASIC-86 e o assembler da Seattle Computer Products usado na própria construção do sistema.

O acervo físico de papéis impressos, doado por Paterson, ficará exposto no Interim Computer Museum.

Os 75 mil dólares que mudaram a indústria

A trajetória do 86-DOS dentro da Microsoft envolveu um dos negócios mais lucrativos da história da tecnologia. Em dezembro de 1980, a empresa de Bill Gates licenciou o software por uma taxa fixa de 25 mil dólares.

No verão seguinte, ao perceber a importância de ter posse total do código para licenciá-lo a outros fabricantes de clones do IBM PC, a companhia comprou todos os direitos por mais 50 mil dólares, totalizando 75 mil dólares (cerca de R$ 374 mil pela cotação comercial atual, sem considerar tributos brasileiros nem taxas de importação).

O movimento foi possível porque a IBM havia procurado a Microsoft em 1980 para desenvolver um interpretador da linguagem BASIC e um sistema operacional para seu novo PC.

Sem ter um sistema próprio, a Microsoft propôs licenciar o 86-DOS, que Paterson havia escrito na Seattle Computer Products porque a versão de 16 bits do CP/M estava atrasada. Paterson deixou a SCP em 1981 para trabalhar diretamente na Microsoft.

Uma janela rara para o desenvolvimento da era pré-Git

O ponto que diferencia esta liberação das anteriores está no nível de detalhe pré-versionamento.

As listagens funcionam como uma espécie de histórico de commits impresso, com notas manuscritas do próprio Paterson registrando quais funcionalidades foram implementadas, quais erros surgiram pelo caminho e como cada um foi corrigido.

Em uma era anterior aos sistemas de controle de versão modernos como o Git, esse tipo de registro era a única forma de acompanhar a evolução técnica de um software.

Vale lembrar que a Microsoft já havia liberado código-fonte de versões posteriores em duas ocasiões. Em 2018, a empresa republicou o MS-DOS 1.25 e o 2.11 sob licença aberta. Em 2024, foi a vez do MS-DOS 4.0 se juntar ao acervo público.

A liberação atual recua o relógio em mais alguns meses, alcançando a faísca inicial que levaria ao primeiro IBM PC, lançado em agosto de 1981.

Reprodução/Wikimédia Commons

A controvérsia que nunca dormiu

O 86-DOS sempre carregou uma sombra de polêmica. À época do lançamento, o sistema foi amplamente acusado de ser fortemente inspirado no CP/M, da Digital Research, criado por Gary Kildall.

Paterson sempre negou cópia direta, alegando ter usado apenas a documentação impressa do CP/M para construir algo que cumprisse funções equivalentes. Em 2012, uma análise forense conduzida pelo perito em propriedade intelectual de software Bob Zeidman concluiu que o QDOS não foi copiado do CP/M e que o MS-DOS também não apresentava sinais de cópia.

A disponibilização pública do código agora permite que qualquer pesquisador, historiador ou entusiasta tire suas próprias conclusões a partir do material original.

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Software também envelhece em papel

A liberação ataca um problema concreto: parte da história da computação só sobreviveu porque um programador específico guardou suas próprias impressões em casa por mais de quatro décadas.

Sem o acervo da garagem de Paterson, não haveria como reconstruir como o kernel saiu da máquina dele em junho de 1981 e virou o sistema embarcado no primeiro IBM PC dois meses depois.

Ao publicar o código sob licença MIT, a Microsoft transfere essa responsabilidade de preservação para qualquer pessoa com acesso ao GitHub, o que torna mais difícil que esse mesmo material desapareça nos próximos 45 anos.

Para quem desenvolve hoje, fica disponível um raro registro de como uma única pessoa, sem controle de versão, sem testes automatizados e sem revisão por pares, escreveu o software que pavimentou a fortuna de uma das maiores empresas do mundo.

Fonte(s): Microsoft

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