O usuário Kryptonfly, membro do fórum Overclock.net conseguiu o que fabricantes de placas-mãe descartaram e a própria Intel nunca planejou: inicializar o Windows em um sistema equipado com o Intel Core 9 273PQE, processador da família Bartlett Lake, instalado em uma placa-mãe convencional ASUS Z790-AYW OC Wi-Fi.
A conquista representa um passo além do que havia sido alcançado dias antes, quando o mesmo entusiasta havia chegado apenas até a tela de POST, sem avançar para o sistema operacional.
O que torna esse processador diferente
O Core 9 273PQE é peça central de toda essa história por um motivo bem específico: é o único chip da família LGA 1700 com 12 núcleos de Performance (P-cores) e zero núcleos de Eficiência (E-cores).
Nenhuma CPU desktop com soquete LGA 1700 oferece essa configuração. Mesmo o Core i9-14900KS, topo de linha da geração anterior, conta com apenas oito P-cores, complementados por 16 E-cores.
O chip opera com clock base de 3,4 GHz, chegando a 5,9 GHz em um único núcleo ou mantendo 5,3 GHz em todos os 12 núcleos simultaneamente. A especificação inclui ainda 36 MB de cache L3, suporte a até 192 GB de memória DDR5-5600 e TDP de 125 W.

O problema é que o Bartlett Lake foi concebido para aplicações industriais, embarcadas e de borda (edge computing), não para desktops convencionais.
Apesar de utilizar o mesmo soquete físico LGA 1700 das CPUs Raptor Lake, a Intel não liberou o microcódigo necessário para que placas-mãe das séries Z600 e Z700 reconhecessem esses chips.
Fabricantes como ASRock e ASUS confirmaram que não planejam suporte oficial para o segmento consumidor.

A modificação de BIOS assistida por IA
A barreira não era de hardware, mas de firmware. Com o soquete eletricamente compatível, o que faltava era convencer a BIOS a tratar o Core 9 273PQE como um processador suportado. Kryptonfly usou o Claude para escrever 100% do código modificado da BIOS.
Com as instruções geradas pelo modelo de IA, os parâmetros necessários foram ajustados para que a placa Z790 reconhecesse o processador, sem precisar trocar fisicamente o chip de BIOS.
A técnica consiste em injetar o microcódigo ausente diretamente no firmware e fazer o sistema acreditar, durante a inicialização antecipada, que está lidando com uma CPU Raptor Lake padrão.

O próprio Kryptonfly descreveu o avanço em linguagem direta no fórum:
HISTÓRICO! Corrigimos o SA init enganando o FSP-M com o SA/PEG init do Raptor Lake. O Raptor Lake SA inicializa após nossos patches para o lado do mem init do Bartlett Lake, sem mais travamento no código 5F, e EU CONSIGO INICIALIZAR O WINDOWS! A sequência de boot é igual ao meu 13900K, sem número estranho.
O que funciona e o que ainda falta
Uma vez dentro do Windows, aplicativos como CPU-Z, AIDA64 e o ASUS TurboV Core reconheceram corretamente o processador, exibindo os 12 núcleos e 24 threads operando a 3.418 MHz.
A GPU do sistema também foi detectada normalmente, abrindo caminho para futuros testes de desempenho em jogos com essa configuração inédita de P-cores.
Há, porém, obstáculos remanescentes. Kryptonfly ainda não consegue acessar o menu da BIOS, pois o GOP Setup Bios precisa de ajustes adicionais. Por ora, o sistema também não reconhece a proporção de clock da CPU.
Mesmo assim, o entusiasta anunciou que pretende disponibilizar arquivos de BIOS modificados para placas Apex, Encore e outras ASUS em breve, sinalizando que a comunidade quer expandir o experimento para outros modelos de placa-mãe.

Por que a Intel não viabilizou isso oficialmente
A Intel lançou os chips Bartlett Lake como uma “plataforma pronta para ambientes industriais” para aplicações de missão crítica em edge computing, com foco em runtimes determinísticos e conformidade industrial, não em consumidores.
O episódio levanta a questão de por que a Intel nunca habilitou suporte a essa CPU nas placas Z, B e H do segmento mainstream, já que a limitação parece ser de firmware e segmentação de produto, não de incompatibilidade real de hardware.
O caso tem ainda um paralelo interessante com a situação atual da Intel no mercado de desktops: a empresa enfrenta pressão crescente da AMD e lançou recentemente os chips Arrow Lake Plus como resposta.
Uma CPU com 12 P-cores sem E-cores poderia ter sido uma proposta intrigante para entusiastas, especialmente em cargas de trabalho de jogos onde P-cores tendem a ter vantagem.
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Segmentação de mercado exposta pelo modding
O episódio do Bartlett Lake no Z790 segue uma tradição da comunidade de overclock em revelar, na prática, onde terminam os limites técnicos e onde começam as decisões de produto.
Se um chip desenhado para servidores industriais consegue inicializar o Windows em uma placa convencional com a BIOS certa, a separação entre as plataformas existe sobretudo no firmware.
Com ferramentas modernas de modding e assistência de IA, essa separação ficou mais porosa do que o fabricante provavelmente gostaria.
Fonte(s): Overclock.net